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22 de abril de 2011

A velha casa do 466

Começo este conto hoje, dia 18 de abril de 2011. Escrevo sobre uma história verídica com alguns incrementos fictícios, que eu inventei, a qual me tocou e me fez escrever agora.

A velha casa do 466

Mateus Córdova

Era ano de 1968. As madeiras de pinho araucária eram pregadas umas às outras, compondo o piso, a sustentação, as paredes e o forro da pequena e até então recém iniciada obra. As telhas eram depositadas uma sobre as outras, cuidadosamente para não quebrarem…
Após longos 6 meses a construção foi dada por encerrada e a casa estava praticamente pronta. Com uma tinta verde a casa ganhou brilho e beleza. Os donos da casa eram um senhor e uma senhora, ambos de idade, aparentando terem uns 75 anos. Não demorou muito para que o senhor que morava na casa falecesse. A senhora morreu 3 meses depois do ex-marido.
A casa tornou-se de propriedade dos filhos do casal, que decidiram alugar a residência para um relojoeiro conhecido da família, o “Seu Natal”, que desde nascido morava na cidade e era muito conhecido.
O relojoeiro tinha constante movimento em sua loja e nunca antes havia faturado tanto quanto depois que mudou-se para a casa nº 466.
Todos os dias, pela manhã, o relojoeiro subia os três pequenos degraus, que caracterizavam a frente da casa, abria a porta e dispunha-se aos clientes.
Não era só consertos de relógios estragados que Seu Natal fazia. Ele também fabricava seus próprios, e no interior destes gravava as letras “R.S.N”. Nunca ninguém o perguntou o que significavam essas três minúsculas letras que ficavam gravadas no relógio, mas supõe-se que seja a abreviação de “Relógios Seu Natal”.
Seus relógios não eram muito vendidos. Basicamente ele vivia dos consertos, mas os poucos que compravam os “Relógios Seu Natal” não se arrependiam.
A relojoaria do homem não tinha nome, todos conheciam o estabelecimento como “Seu Natal”. Um relógio estragou? “Vai lá no Seu Natal”. Precisa de um relógio novo? “Vai lá no Seu Natal”.
O relojoeiro virara ponto de referência na cidade.
“Sabe a casa do meu cunhado Frederico?” Perguntava um.
“Não. Onde fica?” Respondia o outro.
“Lá perto do Seu Natal, uma casa cor ‘azul pastel’ pequena!” Dizia.
“Claro, agora me lembrei!” “Lembrava-se” o outro.
E assim foi por longos anos. O relojoeiro mais famoso da cidade (que tinha como concorrência apenas um homem de meia idade, grisalho, que tinha uma verruga na ponta do nariz, que espantava os clientes, e vivia doente e  um senhor, aparentando ter sessenta e poucos anos, que nunca estava pela cidade e por isso nunca tinha clientes) ganhava fama e dinheiro cada vez mais, a cada dia que se passava.
Ao decorrer do tempo, a cidade que Seu Natal morava cresceu significadamente. Fora um ano de muitas mudanças. Em 1982 a concorrência, não só para relojoarias, mas também para confeiteiros, médicos, mercadinhos, lojas e outros aumentou muito. Os novos comércios que surgiram atrapalharam o lucro dos comerciantes antigos.
Com Seu Natal não foi diferente dos demais. Até 1983 conseguiu segurar sua clientela, mas dali em diante só teve prejuízos. Eram poucos os clientes antigos que não deram preferência aos novos concorrentes de Natal.
O relojoeiro, mesmo com todos os apesares conseguiu manter uma renda suficiente para sustentar-se e à sua família, composta por sua mulher e um sobrinho que vez ou outra passava uma temporada na casa dos tios.
No fim de 1985 os donos da casa que ficava e relojoaria de Seu Natal decidiram vendê-la. O relojoeiro ficou sem ter onde trabalhar, então abriu uma oficina improvisada em sua casa, que ficava num lugar desprivilegiado. Sua clientela caiu mais ainda após a mudança.
A casa verde do 466 ficou esperando por um comprador por 5 meses. Quem comprou foi Doutor Roger, popular médico cardiologista, um dos poucos especializados nessa área na cidade naquela época. Para a sorte de Seu Natal a casa foi disponibilizada para alugar novamente. O relojoeiro voltou para o antigo local de trabalho em 1986 e novamente voltou a liderar o comércio de relógios.
Em 1989 Sr. Fagundes mudou-se para uma casa amarela que ficava logo à frente da casa verde onde trabalhava Seu Natal. Sr. Fagundes tornou-se melhor amigo de Natal. Trocavam ideias sempre que Seu Natal tinha um tempo livre.
Em Janeiro de 1983 Dona Vera, mulher de Seu Natal descobriu que passava por graves problemas de saúde e teria que passar por uma operação cirúrgica cardiovascular de risco com urgência, todavia a renda do relojoeiro não pagava as necessidades do momento. Optaram pela venda da casa em que moravam até então.
No dia 17 de Maio de 1993 o relojoeiro mudou-se para a casa onde trabalhava. Com o dinheiro que conseguiu com a venda da antiga casa pôde investir na saúde de Dona Vera além de comprar uma máquina que agilizaria muito seus consertos de relógios e poderia dobrar a produção, e comprar um carro já usado, mas que atendia às necessidades da família.
Em Junho de 1997 o dono da casa do 466, Dr. Roger, a qual era o local de trabalho e de moradia de Natal e sua esposa, decidiu vender o imóvel e mudar-se da cidade. Bastaram três meses de oferta para que houvesse um comprador da casa.
Romero, um senhor temido na cidade comprara a casa, expulsando Seu Natal e Dona Vera dali e fazendo da velha casa do 466 a sua moradia.
O relojoeiro, junto a sua esposa, recorreu à seu cunhado, Sr. Agostino, e pediu um lugar para ficar. O cunhado ajudou-os e cedeu-os um quarto vago em sua casa para o casal. Agostino morava numa cidade vizinha a antiga cidade de Natal. Ficava  a uns 60 km de distância.
Seu Natal vendeu seu carro e suas ferramentas de trabalho para muitos interessados. Com o dinheiro que juntou pôde voltar à antiga cidade e alugar uma pequena casa de alvenaria num bairro pobre em 1999.
Começou a fabricar pães caseiros. Obteve grande sucesso neste ramo. Passou a guardar uma parte do dinheiro conquistado para fins futuros.
No fim do ano de 2003 Romero, o até então dono da casa do 466, falece sem deixar herdeiros e nem parentes próximos. Um primo de segundo grau fica com a casa e dispõe-a a venda.
Natal e Vera, assim que ficaram sabendo da notícia vão a procura do vendedor do imóvel. Finalmente compram a velha casa verde.
Seu Natal compra, novamente, as ferramentas básicas para a abertura de uma relojoaria. Reencontra Sr. Fagundes após longos 6 anos sem se verem.
No verão de 2009 Dona Vera falece, deixando a saudade predominar no coração de todos os que a conheciam e adoravam, especialmente em Seu Natal. Natal conheceu um sentimento que nunca havia sentido, o qual nem ele conseguia definir, a saudade. Com o passar dos meses consegue superar a perda da esposa.
Em 2010, aos 74 anos, volta a fabricar seus próprios relógios, todavia não obtém sucesso. Em seis meses vende apenas 4 relógios, os quais volta a chamar de “R.S.N.”.
No dia 23 de Março de 2011 Seu Natal sofre um ataque cardíaco. Vai ao hospital da cidade, que encontra-se lotado. Aguarda no corredor frio e sólido entre quatro paredes, cercado por pessoas que transitam de um lado para outro, em meio ao pânico, a dor… Ele luta pela vida como um cego luta pela visão, um surdo pela audição, um mudo pela fala... E abandonado, numa cama de hospital desconfortável, Seu Natal deixa a vida e encara seu próprio luto.
E a velha casa do 466 fica com Luca, o sobrinho de Seu Natal e de Dona Vera que vez ou outra passava temporadas com os tios. Ele decidiu vendê-la a um empresário que ofertou quase o dobro do valor real da casa.
Hoje vejo a casa sendo desmanchada, telha por telha, madeira por madeira. Cada madeira uma história, cada história uma emoção, cada emoção um sentimento, cada sentimento uma lágrima…
A mesma casa que a 43 anos atrás eu construíra, hoje vejo se desmanchando por mãos alheias. É como uma vida se despedaçando.
As paredes de pinho araucária que a 43 anos atrás eu pintava, hoje são jogadas ao lixo.
No lugar da velha casa construirão um edifício, que sufocará as histórias, as emoções, os sentimentos, as lágrimas vividas nas últimas 4 décadas no mesmo lugar…

Comentários do Autor:

Acabo a crônica hoje, dia 22 de Abril de 2011. Foram quatro dias de escritas. Foram quase 1 mil e 400 palavras! Não esperava que o resultado final fosse ficar tão bom.
Tive muitas dificuldades para escrever este texto, pois o assunto que ele abrange é muito específico, por isso tive que escolher e adaptar corretamente cada palavra para que a história ficasse mais interessante possível.
Fiz muitas reformas no texto até chegar a uma conclusão. Adicionei, excluí palavras… Confesso que pensei mais nas partes simples da história do que nas mais complexas. Sim, é completamente estranho agir desta forma, mas aconteceu assim.
Como já disse numa das primeiras linhas deste post, a história é verídica com “incrementos” fictícios. Usei a metáfora para me referir a alguns personagens, mas a maioria do que podemos chamar de “elenco” da história é fictício.
A ideia de escrever esta história apareceu como neve no verão: imprevisivelmente. Sim, acabei de inventar esse termo. Ficou estranho, mas não achei outras saídas a não ser a “neve no verão”  para poder me expressar no momento. O que me inspirou foi o fato de uma casa que existe a quase 50 anos –que na história é resumida para 43 anos- agora esteja sendo desmanchada. Simplesmente peguei minha ferramenta de texto a procura de escrever algo legal e a ideia brotou em minha mente.
Não tenho muito o que comentar sobre minha própria crônica, pois esse papel cabe aos leitores, então deixem suas opiniões em comentários ou enviem um e-mail para blogdomateus@hotmail.com .
Obrigado.