Google+ Pictuelle Photography: Depois do amanhã

16 de maio de 2011

Depois do amanhã

Vejo-me agora sentado em minha cadeira de acalento, na sacada de minha casa, vivendo minha vida deprimente. Aquele foi um dos raros momentos em minha existência em que parei e olhei o céu, notei o movimento das nuvens, o hino dos pássaros, a brisa do vento...
Meus pensamentos agora se embaralham. Recordo o dia de meu casório. Indago-me até hoje por que disse o “sim”. “Sim” este que me trouxe uma maior adversidade, estresse... Meu casamento foi um fracasso. Dois anos após trocarmos alianças nos arredamos. A culpa não foi unicamente dela, mas sim de ambos. Os únicos frutos desta união foram dois filhos, um menino e uma menina. Faziam-me companhia quando menores, mas depois de adultos mudaram-se para suas próprias casas e casaram-se com castiços companheiros.
Gostaria de ter amado legitimamente uma pessoa, de ter aprendido o significado da vida. Gostaria de ter visto o alvorecer e o lusco-fusco. Queria ter me instruído mais, doutrinado mais...
Novamente um nó em meus pensamentos. Agora vejo o quanto fui mesquinho em não ter audácia de chorar, nem mesmo quando privado.
Uma nova ideia vem-me à mente. Lembro-me de minha mãe dizendo-me: “Eu te amo, Pedro!”. Sempre pensei: “Eu também, mamãe.”, mas nunca tive coragem de pronunciar essas três palavras.
Agora observo o jardim. É primavera e as flores ficam ainda mais vivas que de costume. Volto ao passado, e vejo Jaz, meu antigo cachorrinho, correndo livremente entre as enfloras. Aquele cachorro se esmerava tanto por mim e eu nem o dava atenção. Ele parou sua corrida e me encarou, como se me convidasse para brincar. Não fiz questão nem mesmo de admira-lo direito. Simplesmente ignorei e permaneci perto da árvore que me provia sombra. Dois dias depois deste ele morreu. Os veterinários não tomaram conhecimento de seu falecimento e a tecnologia da época não fornecia base para constituir ideias sólidas sobre seu óbito. Como eu quero voltar no tempo e poder abraça-lo, beija-lo e brincar junto a ele. Correr entre as flores, sentir o vento açoitar o rosto...
Lembro-me de uma viajem a Europa. Fui à busca da cura a depressão, mas não obtive sucesso. Quando meus pés tocaram o solo europeu quis voltar para casa. Contrastei. Fui ao hotel que havia reservado. Serviço de quarto, comida 24 horas por dia, piscina, sala de jogos, sauna... Fiquei dentro do enorme quarto de hotel durante dois dias, sem vontade de sair. Os únicos atos tomados por mim eram comer e dormir. Sabia que tinha um mundo para ser explorado do lado de fora, mas sem vontade não fazia questão nem mesmo de me mover. No terceiro dia de viajem tomei coragem e saí do hotel. Meus passos frios e crus levaram-me até um shopping, cheio de vida, de lojas, de coisas para serem abusadas. Nada fez-me animar. Eu não sabia por que meu mundo não entrava em conexão com o exterior. Sem atingir ânimo voltei ao hotel, onde permaneci por mais um dia. Voltei à minha casa, no Rio de Janeiro. Para dizer a verdade não via diferença em permanecer na Europa ou voltar para casa, mas optei por voltar ao Brasil.
Apenas aos meus 64 anos vi o quanto errei. Por razão de meus atos do passado agora estava morto, mas meu coração continuava a latejar. Minha vida não tinha mais acepção. Hoje estou restaurado. Realizei meus sonhos, saltei de paraquedas, encarei a montanha ruça mais temida, rio mais, brinco mais, observo a dança das flores, o uivo do vento, o sorriso do sol... Vivo genuinamente cada segundo da minha existência.
Aprendi, também, que dinheiro não é tudo. Sim, é necessário, mas não suficiente para atingir a alegria. Eu tinha dinheiro para fazer o que bem entendesse, mas não era feliz. Só depois de atingir a paz espiritual me consolei.
Agora amo sem medo, choro sem vergonha, aprendo sem receio, mergulho nas emoções sem confins... Só agora, voltando ao meu passado, pude ver que tinha a disposição todos os caminhos para a felicidade, mas me restringi.
Observo meus netos, frutos de meus frutos, brincando docemente, juntos, e lembro minha infância. Confesso que não tenho muitas recordações deste período de minha vida.
Júlia e Tiago, meus netos, se parecem muito com sua avó, Cristina, minha ex-mulher. Seu nariz fino, olhos azuis e seus dedos delicados fazem parte dos predicados deles.
Neste momento estou sentado, novamente, na cadeira que há 27 anos eu estava sentado, observando o horizonte, balançando-me na cadeira, porém agora estou vivo, vivo em vida.

Escrevi esta história em 2 dias. No primeiro dia escrevi durante 2 horas, incluindo a pausa para o café. No segundo revisei, li, li novamente… Mudei algumas passagens e acrescentei alguns parágrafos. É uma história diferente, e que por mais que pareça estranha acontece com muita gente. Esta não é uma narração triste, mas apresenta passagens tristes, pois o que classifica uma história como triste ou não é o final (na minha interpretação).
Inicialmente o plano era fazer um epitáfio, mas não deu certo. O final feliz da história faz do texto um gênero textual que desconheço. Consiste em muitas características do epitáfio, mas muitas coisas são diferentes, como por exemplo quando Pedro diz que restaurou-se e aprendeu a viver.
O que quero dizer quando cito: “… Agora estava morto, mas meu coração continuava a latejar.”, é que a vida perdia o sentido para o personagem.
Este texto me agonizou. É muito cortante ler e ainda mais escrever todas as dificuldades passadas por Pedro, mas o final feliz me aliviou.
Uma parte da história que achei bem triste foi a do cão Jaz. Certamente o que escrevi neste parágrafo acontece com muita gente e com muito cão. Cães que sofrem na solidão e na rejeição de seus próprios donos e donos que sofrem após a morte de seus cães, mas que não os valorizavam quando vivos…
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