Google+ Pictuelle Photography: Carta ao futuro

18 de junho de 2012

Carta ao futuro

Lá estava eu, naquele lugar que me remetia nostalgia e ao mesmo tempo confortava: a casa onde morei na infância. A fachada de madeira, simplória e receptiva, pintada de amarelo e apagada com o tempo, me fazia sorrir toda vez que a olhava. Aquela janelinha frontal… Os vidros, quadriculados, estavam completamente sujos, mas não pude evitar relembrar as quantas vezes que os braços de minha mãe pousaram sobre ela para permiti-la um descanso, olhando-me brincar na rua.

Ao entrar na casa, o piso rangia, como de praxe. Alguns móveis haviam ficado lá, abandonados, desde que saímos daquela casa, há muitos anos. Como fomos os últimos moradores dali, tudo permanecia intacto. Na pequena saleta, a escrivaninha de meu pai que tanto gostava. Corri meu dedo sobre ela e a suntuosidade da madeira permitiu-se ser vista outra vez, saindo debaixo do pó.

Abri as gavetas e para minha surpresa, havia um livro. Sua capa de 1coiro, que acumulou poeira com o tempo, revelava o título: “Alquimia dos Anjos”. Não me lembrei dele, que, mesmo com um cheiro peculiar de livro antigo, me transmitiu uma energia muito forte, inexplicável. Foi algo além das vertigens nostálgicas, mas agradável. Para meu espanto, uma das páginas tinha uma foto, já amarelada. Um rosto lindo cobria a pequena fotografia. Embora belo, um olhar marcante e tristonho chamava a atenção. Boca pequena e olhos grandes. Nariz delicado, como aqueles esculpidos por anjos, e cabelos levemente ondulados, curtos. Na outra face da foto, apenas constava uma data: “Fev./1981”.

Virando a página, um envelope de carta. Estava colado, talvez nunca alguém tivesse ousado ler. O endereço no envelope, tudo compatível. A quem se destinava, não dizia. Remetente também não. Na ansiedade, abri a carta. Quando li, simplesmente choquei, pois a carta se destinava a mim. Havíamos terminado, eu e Thaís – minha antiga namorada –, nosso namoro há pouco tempo. A breve epístola, toda velha, tinha sido escrita por ela, mas não fazia sentido. Uma comunicação entre futuro e passado. Foi aterrorizante, mas li tudo. Dizia…

“Rio de Janeiro, 15 de fevereiro de 1983

Oi, Fábio. Depois do que li aquela carta, vi que tudo que vivemos foi mentira, então talvez nem seu nome eu saiba ao certo. Ou agora você vai agir como aquela cena clássica das histórias de romance: dizer que pode explicar tudo e inventar uma desculpa esfarrapada. Desculpe, mas prefiro que poupe suas palavras se for assim.

Lendo isto, imagino que já saiba quem vos escreve. Sim. Eu mesma. Eu que me deixei levar por um amor vagabundo, Thaís. Na lástima, acalento-me na cadeira e nos vaivéns posso me lembrar de quando ainda havia algum sentimento comum entre nós dois. Penso em nossos beijos e trocas de te amo. Eu fui verdadeira o tempo inteiro, já quanto a você não se diz a mesma coisa.

Você não sabe como estou profundamente arrependida por ter te conhecido. Meus sentimentos por ti foram do carinho ao desprezo, e assim se eternizarão.

Com meus olhos afogados em lágrimas, te digo que todas as palavras desta carta foram escritas sendo guiadas pelos suspiros de um coração triste.

Adeus, Fábio, para sempre,

Thaís.”

Depois do ocorrido, quedei imóvel. Assustado, saí dali rapidamente. Tentei entrar em contato com Thaís. Por telefone, simplesmente a mensagem dizia: “Número inexistente”. Nas redes sociais sua conta não existia. Depois que terminamos – e este foi um dos motivos do rompimento – ela foi morar em outra cidade, dificultando ainda mais a comunicação. Mas eu sabia seu novo endereço. Não fui até ela, mas enviei cartas. Todas as tentativas em vão. As cartas, todas voltaram.

Até hoje não entendi o ocorrido, mas me conformo pensando que Thaís ficou no passado e eu no futuro. Talvez algum dia nos encontremos, num futuro unificador, onde o tempo resume-se ao agora e nada mais.Fim.

Vocabulário:

1-coiro: o mesmo que couro.


Humor: “estou risonho neste momento porque acabo de me olhar no espelho e pensar: que satisfação por provar o sabor de um Bubbaloo depois de tanto tempo sem por um sequer na boca”. Então estou alegre, feliz algum dia.