Google+ Pictuelle Photography: Fim.

22 de dezembro de 2012

Fim.

E agora vejo tudo se dissipar diante de meus olhos. Tudo.
Numa grande labareda, mostra-me o mundo seu último brilho.
Meus olhos, atrás das vidraças, assistem a tudo no segundo final
                                                                               [que me resta,
E de meu coração foge uma lágrima.

Não posso contar-lhe as emoções,
Nem descrever as sensações, não são coisas que se conte.
Mas o sabor daquele momento, amargo como a dor da brisa que
                                                                    [batia em minha face,
Deixo-lhe numa gota, que carrega consigo o meu viver.

Por um segundo, paro.
Em meu peito ainda palpita um coração.
E então percebo a vida que ainda há em mim. A vida que ainda
                                                                              [há no mundo.

Não quero trocar os sorrisos calorosos das crianças
          Pela morte e pelas cinzas.
Nem a brisa celestial
          Pelo calor tenebroso das labaredas.
Minha vida dou a você, ó mundo;
Aprisiono-me na morte, como um espectro esquecido na masmorra,
          Para saciar a avidez pela vida dessas pessoas, que agora
                                                            [queimam aos meus olhos.

O último segundo termina, então.
O perfume das cinzas das rosas espalha-se pelo ar, perfurando meu
                                                                                      [coração.
Descubro que o fogo é um emissário da morte, e quem nele toca
                                                             [torna-se seu semelhante.

As cinzas, unidas aos ventos, podem voar, como faziam as
                                                                                 [andorinhas.
E o fogo, ele pode dançar, como fazia a bailarina.
Mas nunca mais habitará este mundo, o amor,
Pois quem tem o dom do amar não é a morte, nem as cinzas ou o
                                                                                          [fogo.
É a vida.


Nota do autor:

Esse negócio de fim do mundo pode ser inspirador, sabia? Nunca acreditei que essa suposta previsão maia estivesse correta, tanto que publiquei uma postagem esclarecendo esse sensacionalismo do meu ponto de vista. Mesmo com pouco conhecimento a respeito, algumas de minhas ideias andavam paralelas às que ouvi na véspera do “Fim do Mundo” (todos falam como se fosse um evento), em 20/12/12, quando não faltaram especialistas tentando esclarecer a situação na mídia.

Comecei a pensar em como seria passar pela experiência de ver o mundo, aquele que desde pequeno habitamos, e de que nos tornamos tão íntimos, acabar, e não poder fazer nada para impedir. Eu não suportaria saber que meu planeta simplesmente acabara – tonifico a ideia de que acredito ficarmos vivos de alma após a morte física –, jamais. Acho a natureza incrível, a água, o fogo, as árvores, e o correr das nuvens pelo céu… Isso é o que me faz, talvez, ser tão apegado a este planeta, a ponto de sentir uma angústia cortante ao pensar em seu fim.

Foi esse sentimento tão forte pela Terra que me fez escrever este poema em dois dias, desde a madrugada do dia 21 até a noite de hoje. Os sentimentos do narrador da poesia não são baseados nos meus. Gosto de dizer que o poeta é mentiroso – li isso em algum lugar, não lembro onde –, o que considero fato, com base em mim mesmo.

Ao ler a poesia, ao concluí-la, pude sentir as palavras circulando em meu corpo, fazendo com que eu interagisse com elas, emocionando-me profundamente nas partes mais cortantes como poesia alguma minha havia provocado em mim. Certamente esta postagem entra para a categoria “Meus favoritos”. Espero que vocês, leitores, gostem tanto do texto quanto eu.

Humor: Alegre pelo privilégio da vida. Bem, um dia a vida acaba para todos, claro, inevitavelmente, e muitos sofrem, são castigados injustamente… Mas sempre é um privilégio, pois o  que a vida revela é único.